20 anos de (What’s the Story) Morning Glory?

Era 1995. O cenário musical da época era dominado pelo grunge rock americano, apesar da recente morte do ídolo Kurt Cobain. Apesar dos esforços das bandas indies britânicas da época, como Blur, Radiohead e Pulp, não estava fácil trazer o reconhecimento do mundo para o cenário underground, da mesma forma que o Nirvana havia feito nos Estados Unidos.

No ano anterior, o Oasis havia se juntado a esse movimento que hoje chamamos de britrock. Ainda eram estreantes, mas o debut Definitely Maybe havia sido diretamente lançado para o topo dos charts britânicos e conseguido alguma atenção americana. O momento de lançar o segundo disco se aproximava e, com ele, a pressão de manter o nível musical alto.

Os dois primeiros singles, “Some Might Say” e “Roll with it”, lançados antes do próprio álbum, indicavam uma melhoria na voz do vocalista Liam e um som menos caseiro, mais profissional, mas também que o estilo do Oasis permaneceria o mesmo do primeiro disco: um rock cru, ao estilo da cartilha “sexo, drogas e rock’n’roll”. As duas músicas não eram ruins, estavam longe disso, mas ainda estavam aquém do que eles apresentaram no primeiro disco. E seguindo uma lógica simples, se esses eram os singles, o que estava por vir provavelmente não seria mais que um disco mediano, certo? Pois bem… não.

Então no dia 2 de outubro, “(What’s the story) Morning Glory?” veio ao mundo para supreender a todos. Nascia ali um clássico. Dez canções que misturavam o estilo Oasis “Rock’n’roll star” com um lado mais pop, inspirado na melhor fase dos Beatles. Elaborado na ideia de Noel Gallagher – guitarrista e compositor – de que cada música deveria ter a qualidade de um single, o disco é daqueles que você põe para rodar e não precisa se preocupar em pular faixas. Mais impressionante é pensar que ele poderia ter sido ainda melhor. Nessa época, Noel Gallagher estava em sua fase mais inspirada e simplesmente decidiu descartar músicas como “Acquiesce” e “The Masterplan” (vídeo abaixo) como b-sides, faixas que estão nos singles e geralmente são conhecidas apenas pelos fãs.

Puxado principalmente pelos megahits “Wonderwall”, “Don’t Look Back in Anger” e “Champagne Supernova”, que qualquer um que viveu nos anos 90 sabe cantarolar, foram um total de mais de 20 milhões de cópias vendidas. O Oasis foi lançado ao topo dos charts de todo o mundo e mostrou como o rock britânico ainda tinha forças.

Talvez falar de uma banda que tenha vendido tanto assim não seja o objetivo aqui no Panda, mas Oasis foi aquela banda que me mostrou o caminho para tantas outras que aparecem aqui nas nossas playlists. “(What’s the Story) Morning Glory?” completa hoje 20 anos e, como fã, eu precisava deixar meus parabéns. Live forever!

Abaixo coloco uma tradução livre da chamada “sleeve notes” do álbum, um textozinho poético (e nonsense) encontrado no encarte, que talvez seja uma descrição melhor que qualquer resenha já escrita sobre o “…Morning Glory?”:

Descendo da nova* em algum lugar próximo do ovo cozido** que é o Royal Albert Hall, vemos o sol de Paul cruzar com a estrela de John*** e seguramos mãos sujas de sorvete. Alguém põe para tocar uma fita cassete, enquanto o que você queria se foi com outra pessoa, mas de alguma maneira foi legal porque quando a música preencheu as sombras, você ouviu um som que estava a milhões de milhas distante da falsidade e a apenas um passo de seu coração.

Como sempre fez, esse som coloca a arrogância de volta em seu lugar, a pressa em seu sangue, mas de alguma forma, e eu não sei como, eles se tornaram mais profundos, amplos, mais cheios de alma, melhor em suas obras, inspirados por tantas coisas, como um mundo balançando sabe-se lá onde e o aplauso que eles sempre souberam que era deles mas que esperaram tão impacientemente para receber. As letras te cortam por todos os ângulos, apoiadas por um som que cresce mais, mais e mais para colidir contra suas defesas e então muda, majestosa e magicamente, para amenizar as feridas internas.

Enquanto você é sugado para dentro dessa viagem abandonada, você ouve uma comunidade cantando do coração para fora, você ouve o barulho de moedas que nunca são o suficiente para comprar o que você precisa, tédio e pobreza, horas gastas com uma guitarra cansada, pubs sujos e calçadas rachadas, violência e amor, tudo misturado e agora tudo isso.

No fim, você vira a fita e começa novamente porque agora você não está isolado. Eles foram para o trabalho para que você pudesse ir para casa. Lá em cima, o dia se torna rosa e você sente seus pés se elevando acima do chão enquanto novos caminhos se abrem em sua frente. Nessa cidade, o júri é sempre comprado, mas as pessoas sabem. Elas sempre sabem a verdade. Acredite. Fé. Além. Sua manhã gloriosa.

*Nova: estrela cuja luminosidade repentinamente aumenta e depois retorna ao normal gradualmente. Também uma referência a Champagne Supernova, a última faixa.
**Referência ao formato do famoso local de shows Royal Albert Hall em Londres.
***John e Paul: Referência a John Lennon e Paul McCartney dos Beatles.

 

Erick Yoshida

 

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